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sábado, 5 de março de 2011

É de verdade.



O poder da lingua escrita às vezes me deixa com um nó na garganta.
Faz bastante tempo, recebi por e-mail o texto abaixo, que é a decisão integral de um juiz, num processo criminal, sobre manter ou não os acusados em prisão preventiva.
Queria ter sido eu a escrever  isto:



Decisão proferida pelo Juiz Rafael Gonçalves de Paula nos autos nº 124/03 – 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas/TO:

DECISÃO

            Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

           Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional),...
               Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.
            Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário.
             Poderia brandir minha ira contra os neoliberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia,...
              Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra – e aí, cadê a Justiça nesse mundo?
             Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tanta obviedade.
             Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.
             Simplesmente mandarei soltar os indiciados.
             Quem quiser que escolha o motivo.
             Expeçam-se os alvarás. Intimem-se.
          
            Palmas – TO, 05 de setembro de 2003.

Rafael Gonçalves de Paula
Juiz de Direito

Um comentário:

  1. Fantástico...muito bom mesmo...se tivéssemos mais juizes como este...não teriamos tanta bandalheira no judiciário!!! Parabéns por postar o texto querido!!! Bjus!!!

    PS:Affff...nao sei escolher o perfil pra dizer quem escreveu nao Phopho...vou ser anonima de novo...kkkkkk

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